Uma Trilha na Mata Atlântica

5 de julho de 2019

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Uma trilha em meio a selva é sempre um reencontro com o passado do mundo, e a Mata Atlântica carrega isso em cada raiz. Enquanto caminha pela mata, o explorador desse paraíso olha para o chão da floresta, atento para não pisar em animais peçonhentos, como a cobra Jararacuçu. Também, busca evitar tropeçar em galhos, raízes, formigueiros e buracos de tatu. A tarefa de evitar colocar o pé onde não se deve fica mais difícil ainda, pois a luz do sol para no dossel a mais de 25 metros de altura, deixando o solo escuro, úmido e marrom.

Caminhando na trilha, o viajante começa a reparar não apenas nos obstáculos, mas no entorno. A Mata Atlântica fascina o visitante. A imensidão das árvores, dos tons de verdes e troncos de cores distintas formam uma complexa e delicada rede de beleza. São folhas finas, largas, cortadas, secas e vivas. São raízes e cipós para todos os lados.

Os sons proporcionam outra parte da experiência imersiva dentro das matas. São diversos, são sempre únicos e variam conforme a hora, o local e a época do ano. O vento nas copas traz um leve chiado nos ouvidos do viajante, e as aves dão vozes à floresta. No amanhecer, quando apenas os raios solares timidamente começam a mudar os tons do céu e a entrar na mata, ouve-se os primeiros cantos. No momento em que o sol nasce no horizonte das serras, aves coloridas como saíras e sanhaços vão em busca de frutas e emitem um contínuo piado durante a exploração.

Conforme o tempo passa e o clima esquenta, os sons se diversificam. A sinfonia da fauna entra no clímax. A partir das 11 horas da manhã, uma calmaria se instaura, o calor tropical sossega as aves de papos cheios e estimula as cigarras a cantar.

Os zunidos metálicos das cigarras cessam com o cair da tarde. Nesse momento, a agitação das aves e muitos outros animais começam novamente. Os bichos da floresta buscam por uma última refeição e um lugar seguro para dormir, antes da madrugada se estender.

Um explorador da Mata Atlântica mais atento pode aprofundar-se também no cheiro das folhas, dos animais, dos troncos caídos, dos insetos e da umidade. Tudo exala um aroma próprio e podem juntos aumentar a imersão dentro dessa milenar floresta tropical brasileira.

As palavras são insuficientes para descrever as sensações de um viajante em uma floresta como a Mata Atlântica. Isso porque seu vocabulário é incapaz de explicar o que sente. A contemplação em uma floresta nunca será visual, olfativa ou auditiva. A experiência para aqueles que sentem paixão pela natureza vai além dos sentidos conhecidos. O real contato com a floresta é feito de corpo, alma e coração.

Por isso, um viajante mais experiente, ao entrar em uma floresta, pode ver o passado e sentir como tudo era antes da existência dele próprio. A Mata Atlântica pode contar a história da evolução sem falar uma palavra. Além disso, ela pode ensinar que não existe a divisão entre natureza e civilização, pois tudo está ligado de maneira física e espiritual.

Talvez, ao explorador iniciante, toda essa possível ligação espiritual fique mais clara no encontro com os calmos rios da Mata Atlântica. A calmaria das águas não tem a ver com baixo volume ou muito menos com a velocidade das corredeiras. Na verdade, existem cachoeiras em meio a mata com mais de 100 metros de altura, como a queda de Salto Morato, no litoral norte do Paraná. O sentimento de paz que os rios transmitem possuem relação com o confortável ruído das águas cristalinas e com o entendimento que tudo flui.

No entanto, é mais do que isso, tem a ver com a energia revigorante do rio. Veja, mesmo nunca sendo o mesmo fisicamente, a essência de um rio beira a eternidade. Na Mata Atlântica existe um lugar em que nem a razão e nem o egoísmo conseguem adentrar. Nas costas e nas serras, ainda há lugares impenetráveis com “florestas virgens tão antigas quanto o mundo” (Auguste de Saint-Hilaire).

Victor Chahin – Dezembro/2017