Manifesto Ecológico

5 de julho de 2019

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Este manifesto ecológico é fruto da minha indignação e profunda tristeza por aqueles que se acham donos do Brasil. Por aqueles que devastam a natureza de maneira descontrolada e ignorante e usam o poder para autorizar o desmatamento de florestas milenares. Esta manifestação, com viés ativista, é motivada pela paixão que tenho pela natureza, a qual tenho o prazer de fotografar desde os meus 12 anos.

No curto período que estive em contato com a natureza, por meio da fotografia, criei uma ligação forte com a Mata Atlântica. Com o tempo percebi que essa profunda conexão com uma das florestas mais biodiversas do mundo não podia ser apenas algo contemplativo para mim. Senti a necessidade de transformar minhas imagens em uma reflexão para todos.

A necessidade de retratar o desmatamento da Mata Atlântica é estimulada pela conduta da nossa sociedade, que ergueu-se em meio à corrupção e ao caos. Uma minoria colonizadora arrancou as raízes das árvores e sugou o sangue dos escravos, em busca da riqueza e do poder. Tal comportamento, infelizmente, tornou-se um mal hereditário. O povo brasileiro ainda vive espoliado por essa ganância.

Foto de um rio em meio a mata com águas fortes. Um tronco saindo do centro esquerdo da imagem e indo na diagonal até o centro direito da foto, seguindo o sentido do rio. A Mata recobre o Rio, colocando um clima escuro e verde.

Mais de 500 anos de história, desde a colonização das terras chamadas de Brasil; cinco séculos de abuso, corrupção e desmatamento. Mesmo assim, a lição de que estamos a percorrer o caminho errado nunca foi ensinada. Isso pode ser visto na história da devastação da Mata Atlântica, que ainda está sendo escrita.

Mesmo com apenas 8,5% da floresta preservada, a biodiversidade ainda sofre com queimadas criminosas, monocultura, extração de palmito, poluição, tráfico de animais silvestres e caça e pesca ilegal. Há também o avanço do transporte individual, que aumentou o número de rodovias que passam por áreas de matas. Por consequência, o número de atropelamentos da fauna é assustador.

Esse massacre pelo qual as matas brasileiras sofreram – e sofrem –, mostra-nos a capacidade do Homem em devastar centenas de milhares de quilômetros de áreas florestais. Em pouco tempo de história fomos capazes de extinguir formas de vidas das quais demoraram milhões de anos para evoluir. Sem ao menos refletir que somos parte da natureza.

Existem locais no Brasil que estão abandonados. Há grandes áreas em que o Estado está absolutamente ausente. A violência e a injustiça imperam.

A Mata Atlântica, que era grande, pulsante e viva, acabou. O que restou – mesmo que seja ainda diverso e extremamente belo – são retalhos, fragmentos; as últimas folhas de uma enciclopédia. Imagine um livro em que, até as últimas páginas, se contava a história da vida. E depois, como um sopro, tornaram-se a história de morte. O que ainda vive da floresta atlântica é como uma foto antiga de um falecido parente, que vem à tona do passado com um sentimento de luto.

Fogo no capim alto. Fogo forma um arco do centro da imagem para a esquerda e sobe em curva de volta ao centro da imagem. Fogo intenso.

Por isso, as fotos são poderosas. Elas atravessam o tempo, são capazes de trazer a realidade de forma pensativa e artística. Uma foto pode ser atemporal e pode servir como retrato daquilo que a humanidade deve evitar e aquilo que deve ser preservado. Uma foto, como diria Drummond “conta só o que viu, não pode mudar o que viu, não tem responsabilidade no que viu, a câmara, entretanto, ajuda a ver e rever, a multi-ver. O real nu, cru, triste e sujo. Desvenda, espalha, universaliza.”

É necessário elevar o homem a um estado de ecologia. Isto é, de realmente reaproximar o Homem da natureza; de mostrar que, ao interferirmos em uma ponta da teia da vida, isso refletirá em todo o resto. Com esse manifesto ecológico e com minhas fotos, tento mostrar que uma ave, uma cachoeira e um ser humano são tecidos que formam o grande corpo da Terra.

A barreira criada entre os seres humanos e a natureza, como se não fôssemos parte dela, deve ser repensada. Não adianta acreditar na utopia em que viveremos novamente junto aos outros seres, e que abandonaremos o estilo de vida dito “civilizado”. Mas, acredito que é possível uma reaproximação, a qual prevaleça o respeito a todas as formas de vida.

A luta deste manifesto ecológico e das minhas fotos é apenas uma entre as centenas de bandeiras que os brasileiros precisam levantar. Acredito que a ecologia pode não só mudar a relação entre o Homem e a Natureza, mas também a relação da sociedade consigo.

Victor Chahin – Setembro/2017